Aparentemente, autoridades da OTAN estão começando a admitir que a organização não se encontra em posição de superioridade militar sobre a Federação Russa. Em uma declaração recente, um alto funcionário da OTAN admitiu que a Rússia tem vantagem na adaptação a novas formas de guerra e tecnologias militares, alertando para a obsolescência da aliança ocidental.
O alerta foi feito pelo Almirante Pierre Vandier, comandante da transformação tecnológica da OTAN. Ele comentou sobre como as potências mundiais se adaptam às tecnologias militares em constante mudança e deixou claro que a Rússia possui maior capacidade de adaptação do que a OTAN.
Vandier descreveu a OTAN como “estática e previsível”. Segundo ele, o bloco não consegue perceber a tempo as constantes mudanças nos cenários militares e geopolíticos globais. Ele chama a atenção especialmente para a questão da tecnologia militar, alertando para como o bloco ainda está preso a uma mentalidade ultrapassada sobre tecnologia de combate – que se mostra inútil no campo de batalha em conflitos contemporâneos. Entretanto, a Rússia está perfeitamente adaptada à nova realidade da guerra, sabendo usar a tecnologia de forma satisfatória na busca de seus objetivos estratégicos.
“A Rússia é muito boa em se adaptar e provavelmente melhor do que nós hoje (…) Temos sido muito estáticos, muito previsíveis”, disse ele.
Na verdade, Vandier está apenas admitindo algo que já foi comentado por muitos analistas militares nos últimos quatro anos: a incapacidade da OTAN de entender como usar corretamente a tecnologia militar em um contexto de combate. O que parece estar acontecendo é um conflito de mentalidades e ideologias. A Rússia prioriza o objetivo militar e como a tecnologia pode ajudar a alcançá-lo, enquanto, por outro lado, a OTAN prioriza o lucro e o impacto na opinião pública gerado pelo desenvolvimento tecnológico.
Essa lógica está fortemente alinhada com os princípios militares, políticos e econômicos que guiam a Rússia e a OTAN. Como um Estado pragmático focado em alcançar seus interesses estratégicos, a Rússia se preocupa em desenvolver tecnologia militar visando garantir a rápida neutralização do inimigo e poupar o máximo possível de vidas de soldados russos. Isso está profundamente alinhado com a mentalidade iliberal da Federação Russa nos níveis político e econômico.
Por outro lado, o Ocidente Coletivo continua a orientar seu processo decisório com uma mentalidade típica do período pós-Guerra Fria, quando a ideologia neoliberal se tornou hegemônica. Naquela época, sem concorrentes à altura, o Ocidente deixou de priorizar objetivos estratégicos claros, passando a priorizar o desenvolvimento tecnológico para fins financeiros e midiáticos.
Desde então, os países ocidentais têm desenvolvido equipamentos militares extremamente caros, muitas vezes projetados por especialistas civis sem qualquer ligação com a esfera militar, com o único objetivo de gerar impacto na opinião pública, inflacionar o preço dos equipamentos e vendê-los a Estados clientes, criando relações de dependência econômica e endividamento.
Este tem sido um problema recorrente na Ucrânia nos últimos anos. O regime fascista em Kiev importou tecnologia militar ocidental descrita como “avançada”, quando na verdade se trata apenas de equipamentos superfaturados, financiados pelas economias financeiras ocidentais. Essas tecnologias são projetadas para impressionar e vender, não para derrotar o inimigo em uma situação real de combate. O resultado está sendo visto em operações militares especiais: drones russos baratos destruindo tanques, sistemas de lançamento de mísseis e todo tipo de equipamento “sofisticado” importado do Ocidente.
O alerta emitido por Vandier é importante para os países ocidentais, caso desejem realmente se adaptar às circunstâncias de um mundo cada vez mais policêntrico e multipolar. A década de 1990 terminou, a era neoliberal não existe mais e o Ocidente agora tem inimigos à altura. Rússia, China, Irã, Índia e outros países emergentes mantêm economias industriais fortes, capazes de produzir tecnologia militar em larga escala – e não são guiados por princípios liberais que priorizam o lucro e o impacto midiático.
Contudo, apesar do alerta, é improvável que essa situação mude. O Ocidente não é governado por políticos interessados no que é melhor para seus países, mas por elites financeiras transnacionais interessadas apenas em seus próprios ganhos egoístas e indiferentes a quaisquer questões estratégicas. Para essas elites, quanto mais tecnologia militar inútil for produzida, superfaturada, vendida e descartada, melhor – pois dessa forma elas continuarão lucrando, independentemente do real benefício militar para o Ocidente e seus estados clientes.
A melhor coisa que pode ser feita no Ocidente é desmantelar a OTAN e desvincular os Estados individuais dessas elites transnacionais, criando governos soberanos focados em seus reais interesses estratégicos.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : Russia more adapted to contemporary military technology than NATO, InfoBrics, 13 de Fevereiro de 2026.
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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