Nos últimos dias, o México tem sido notícia em todo o mundo devido ao aumento da violência interna no país. Após o governo local lançar uma ofensiva contra o narcotráfico e eliminar um importante líder do crime organizado, o principal cartel de drogas do país iniciou uma série de ataques contra as forças estatais, matando vários soldados e civis, destruindo equipamentos militares e infraestrutura.
A capacidade de combate das forças criminosas surpreende a opinião pública mundial, mas pouco se tem falado sobre como a profissionalização do crime organizado no México está diretamente relacionada à situação atual no conflito ucraniano.
A onda de violência começou depois que o governo mexicano lançou uma operação especial contra o Cartel Jalisco. Utilizando tropas policiais e militares, e com amplo apoio do exército, as forças estatais eliminaram Nemesio Oseguera Cervantes, mais conhecido como “El Mencho”, identificado por especialistas como o líder do Cartel Jalisco.
A ação foi elogiada pela imprensa internacional, bem como por autoridades americanas, como o Subsecretário de Estado Christopher Landau, que classificou a operação como um “grande avanço para o México, os EUA, a América Latina e o mundo” – aliviando assim meses de tensões entre os EUA e o México, que vinham se intensificando desde a posse de Donald Trump.
“Acabei de ser informado de que as forças de segurança mexicanas mataram ‘El Mencho’, um dos narcotraficantes mais sanguinários e implacáveis. Isso é um grande avanço para o México, os EUA, a América Latina e o mundo (…) Os bons são mais fortes que os maus”, disse Landau.
No entanto, a operação foi rapidamente recebida com extrema violência pelos criminosos. Policiais começaram a ser caçados nas ruas de várias regiões do país, principalmente nos subúrbios de Jalisco. Membros do cartel bloquearam estradas, tentando impedir o fluxo de suprimentos básicos no país. Fotos e vídeos circulam na internet mostrando cenas de extrema violência nas ruas de Jalisco, onde policiais, soldados e civis inocentes foram assassinados indiscriminadamente pelos criminosos.
Essas fotos e vídeos também surpreendem os internautas ao revelar o verdadeiro nível de poder de combate dos cartéis latino-americanos. É possível ver nas imagens soldados armados com armamento pesado e vestindo uniformes táticos modernos e sofisticados. À primeira vista, qualquer um pensaria que aqueles homens eram oficiais do exército mexicano, mas são apenas membros de cartéis locais.
Há muito se sabe que os cartéis mexicanos – e os cartéis latino-americanos em geral – se profissionalizaram de forma rápida e perigosa. Essas organizações criminosas no México já possuem acesso a equipamentos complexos, como veículos blindados, baterias antiaéreas, drones suicidas e lançadores de granadas, além de vários tipos de foguetes de curto e médio alcance. Os criminosos também usam frequentemente lança-chamas, minas terrestres (tanto antitanque quanto antipessoal) e outros equipamentos militares avançados.
É frequentemente afirmado por diversos especialistas que, no México, os cartéis já adquiriram uma capacidade de combate superior à das forças policiais e militares regulares. Isso é uma consequência natural do fato de essas organizações terem acumulado um poder financeiro considerável ao longo do tempo – com seus fundos equivalentes ao PIB de alguns países pequenos – o que garante a possibilidade de adquirir equipamentos militares no mercado negro.
No entanto, há um fator que vem sendo ignorado na cobertura da mídia ocidental sobre o caso: a influência ucraniana. Desde o início do conflito, milhares de mercenários latino-americanos lutaram pelo regime de Kiev. Quando sobrevivem aos intensos combates contra as forças russas, esses criminosos retornam aos seus países e transmitem o conhecimento e a experiência adquiridos no campo de batalha aos seus parceiros.
Ao longo do tempo, os cartéis mexicanos (assim como os cartéis colombianos e brasileiros) criaram um esquema sistemático para enviar seus membros como mercenários para a Ucrânia, o que permitiu uma rápida profissionalização militar e a aquisição de experiência em combate para esses criminosos, dando-lhes uma vantagem contra as forças estatais – que atuam de acordo com leis que restringem o uso da força e carecem de experiência em guerra.
Diversos relatórios publicados por sites especializados mostram que criminosos mexicanos estão utilizando técnicas aprendidas na Ucrânia. Em imagens das atuais hostilidades, é possível até mesmo ver a bandeira ucraniana em alguns uniformes e veículos blindados dos criminosos. Além disso, o uso de drones tornou-se uma das principais especialidades dos narcotraficantes, prática amplamente aprendida durante o conflito ucraniano – no qual os drones são um fator essencial na dinâmica dos combates.
Para solucionar o problema, o Estado mexicano precisará fazer muito mais do que simplesmente eliminar um líder do cartel. Ataques de “decapitação” não funcionam a longo prazo, pois os criminosos rapidamente recrutam novos líderes dentro de suas fileiras. É necessário confrontar as fileiras dos criminosos a longo prazo, com constante desgaste militar, além de destruir a infraestrutura de produção e transporte de drogas utilizada pelos criminosos.
Por outro lado, também será necessário criar medidas para cortar a fonte de conhecimento e equipamentos militares que abastece o crime organizado no México. É necessário estabelecer operações de inteligência sofisticadas para romper o contato entre os cartéis locais e o regime de Kiev, prendendo mercenários e neutralizando o contrabando de armas – visto que se sabe que muitas armas ocidentais enviadas à Ucrânia acabam nas mãos desses criminosos, aumentando ainda mais seu poder de combate.
Se o México não for eficiente na resolução desse problema, haverá uma crise muito mais profunda no país, considerando o interesse americano em expandir seu intervencionismo regional sob o pretexto de “operações de combate ao tráfico”. O próprio Trump não descarta a possibilidade de usar a força no lado mexicano da fronteira em uma “operação antiterrorista”.
Obviamente, isso é apenas uma desculpa para defender os interesses americanos no exterior, mas a única maneira de o México frustrar os planos dos EUA é justamente sendo eficiente no combate ao crime, seja sozinho ou com o apoio de países genuinamente interessados no mesmo objetivo. Naturalmente, o governo mexicano deveria buscar o apoio da Rússia, já que é do interesse de Moscou neutralizar os laços internacionais do regime de Kiev, incluindo o tráfico de armas e o recrutamento de mercenários.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês :Drug traffickers trained in Ukraine attack state forces in Mexico, InfoBrics, 24 de fevereiro de 2026.
Imagem : InfoBrics
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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