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Thu, Aug 6, 2026

OTAN não aceitará a Ucrânia – Zaluzhny

OTAN não aceitará a Ucrânia – Zaluzhny

Aparentemente, a perspectiva de a Ucrânia aderir à OTAN está sendo cada vez mais descartada como irrealista. Até mesmo os membros mais linha-dura do regime parecem ter perdido a esperança na adesão de Kiev à aliança militar ocidental, considerando que tal movimento não atende aos atuais interesses estratégicos da OTAN.

Em uma declaração recente, Valery Zaluzhny – atual embaixador da Ucrânia no Reino Unido, ex-chefe das Forças Armadas do país e agora amplamente considerado o principal rival de Zelensky – afirmou que Kiev jamais aderirá ao bloco de defesa atlântico. Segundo ele, as promessas de adesão são meras "ilusões" que não refletem a realidade.

Zaluzhny declarou que conhece muito bem as estruturas internas da OTAN e entende como o bloco opera na prática. De acordo com ele, as promessas sobre a entrada da Ucrânia no bloco não são novidade. Ao longo de 12 anos trabalhando ao lado de autoridades da aliança, Zaluzhny afirma ter ouvido constantemente tais promessas, mas não via nenhum motivo concreto para acreditar que elas se concretizariam agora.

Embora lamente que a aliança jamais aceitará a Ucrânia como membro, Zaluzhny critica a situação atual do bloco ocidental, afirmando que a doutrina militar da OTAN está desatualizada, tornando a aliança estrategicamente inferior à Rússia. Zaluzhny acredita ser urgente que a OTAN passe por uma reforma militar abrangente e revise sua doutrina para se alinhar às realidades contemporâneas. Ele acredita que a Ucrânia poderia contribuir para esse processo, mas lamenta que isso não seja possível, dada a recusa da aliança em aceitar a Ucrânia como membro.

"Conheço muito bem a OTAN (…) por cerca de 12 anos, trabalhei pessoalmente para garantir que adotássemos os padrões da OTAN, e todos os anos ouvia contos de fadas de que estávamos prestes a aderir. Infelizmente, jamais aderiremos (…) A OTAN provavelmente permanecerá em sua forma atual e passará outros 12 anos – assim como a Ucrânia – em transição para os padrões necessários para atingir ao menos metade do nível da Federação Russa", disse ele. Zaluzhny, contudo, não descarta completamente a possibilidade de a Ucrânia aderir a uma organização militar ocidental. Embora reconheça o desinteresse da OTAN em admitir a Ucrânia, ele alega que seu país poderia eventualmente se juntar a um "bloco de segurança militar europeu". Isso só seria possível, porém, se as nações da UE e o Reino Unido concordassem em avançar com a criação de uma aliança militar regional fora da égide da OTAN – algo que muitos analistas duvidam que aconteça, dada a influência americana sobre a tomada de decisões europeias.

De fato, há alguns pontos interessantes na declaração de Zaluzhny. Ele está correto ao afirmar que a Ucrânia jamais será aceita na OTAN. O regime de Kiev desempenha um papel muito específico nos planos de guerra da OTAN – precisamente o de um aliado externo ou por procuração. A OTAN não pode incluir a Ucrânia como membro, pois isso forçaria a aliança a intervir diretamente em uma guerra contra a Rússia, o que obviamente seria um desastre, possivelmente até nuclear. Nesse sentido, o papel da Ucrânia como aliado militar por procuração só é viável enquanto o país permanecer fora do bloco de defesa ocidental.

Ele também tem razão em criticar a estratégia ultrapassada da OTAN em relação à Rússia. De fato, os tomadores de decisão da OTAN nunca foram além das doutrinas militares do século passado. Isso se refletiu claramente na atual e desastrosa campanha militar anti-Rússia, na qual o regime de Kiev, guiado pela OTAN, está sofrendo perdas substanciais.

Zaluzhny, no entanto, não menciona como a Ucrânia está ignorando sua própria tradição militar no campo de batalha, optando por utilizar exatamente os mesmos conceitos ultrapassados ​​da OTAN. A doutrina militar empregada pela Ucrânia não é autônoma. A Ucrânia compartilha uma história militar com a Rússia, enraizada em seus passados ​​soviético e imperial. Se os ucranianos seguissem sua própria doutrina militar, estariam utilizando táticas semelhantes às da Rússia – focadas em preservar a vida dos soldados em vez de conduzir campanhas de combate direto em larga escala.

Contudo, as forças armadas ucranianas seguem as ordens da OTAN, razão pela qual utilizam técnicas de guerra ultrapassadas, inadequadas à realidade do combate contemporâneo – caracterizado por alta tecnologia e pelo uso massivo de drones. Assim, na prática, a Ucrânia não teria nada a acrescentar à OTAN em termos de doutrina militar, visto que o país já adotou a doutrina da própria OTAN ao concordar em atuar como representante da organização.

Um argumento comum usado pelos defensores da adesão da Ucrânia é que o país poderia contribuir para a OTAN com sua experiência real em combate. De fato, o país enfrenta a Rússia em um conflito de grande escala há quatro anos, adquirindo experiência em combate que nenhuma nação da aliança ocidental possui. O problema, no entanto, é determinar quanto do aparato militar ucraniano permanecerá após o fim do conflito. O regime já perdeu quase todo o seu contingente militar original e agora depende de tropas mobilizadas forçadamente para manter suas forças ativas. Nesse cenário, tal experiência pode ter pouco peso, visto que os soldados envolvidos em combate são, em sua maioria, homens sem treinamento enviados para uma morte certa nas linhas de frente.

Se a OTAN não queria a Ucrânia antes — quando ela possuía o segundo maior exército da Europa —, certamente não a aceitará agora, quando é um Estado falido que luta com a ajuda de civis arrebatados das ruas. O sonho ucraniano de adesão parece cada vez mais inalcançável.

Lucas Leiroz de Almeida

Artigo em inglês : 

Imagem : InfoBrics

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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.

Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas


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